Layon e a Expressão da Dor

Elias Layon, o pintor das brumas, das paisagens embranquecidas pela névoa que ofuscam sol, nuvens e casarios barrocos, na região dos Inconfidentes, na obra de traços nervosos e vigorosos, “A dor do mundo”, parte da coleção “As 2000 mil faces de Cristo”, vai além, muito além da opacidade brumosa em suas pinturas de traços leves, coloridos e sensíveis.

Bruma layoniana toma lugar de brilho, apagando raios solares, para encobrir visão e instaurar contemplação. O efeito brumoso é o mesmo da opacidade, ocultar sem obscurecer, de forma sutil, transparente e leve.  A opacidade da bruma revela leveza e volatilidade.

Dizem que poeta e artista têm espíritos iluminados por Deus, pois foram escolhidos para representarem o que os olhos não veem, mas a alma, o coração e o espírito sentem. Artistas foram escolhidos também, para ir até e além de paisagens exuberantes ou devastadas pelo ser humano. Vão além do óbvio ululante, para dar vazão às idiossincrasias da alma.

O homem imita a natureza? Não, o homem a recria e a reinventa ultrapassando limites científicos.

Layon, em “A Dor do Mundo” expõe, através de pinceladas vigorosas, precisas e nervosas, “O Grito” munchiano, reflexo diante da tragédia humana. Trata-se de dor em sua concepção irretratável, não dicionarizada, inimaginável, grotesca e grandiosa, que qualquer simbolização linguística, por mais verossímil que fosse, seria irrisória e insignificante.

Layon não descreve, nem narra em pinceladas suaves, soltas e de cores claras, a dor do mundo. Ele ultrapassa a verossimilhança externa e atinge, com olhos voltados para o mundo, a verossimilhança interna, revelação das melancolias nas almas mutiladas em catástrofes, esses tantos apocalipses que devastam mundos construídos pelos sonhos humanos.

Aqui a bruma não aparece, a dor não se esconde; ela se manifesta e requer visibilidade.  Nos momentos de dor, o homem apega-se à fé e encontra a face de Cristo, força que resiste toda dor do mundo. A dor do mundo aqui não é flexionada, nem pluralizada, pois o nome singular da obra dá a pincelada magistral e definitória da dor. Em “A Dor do Mundo” não há acaso, mas objetivo, fundamentação e proposta temática de um trabalho audacioso, de difícil representação.

Layon se propõe a pintar, 2.000 faces de Cristo. Por que faces de Cristo? Talvez porque Cristo é imagem de todas as dores dos seres viventes, e é Ele, quem grita no grito de todos aqueles que se desesperam em momentos limiares de sofrimento.

O mundo gira na face vermelha e preta de Cristo, ciclicamente, em traços fragmentados de construções em ruínas e de faces em dor. O questionamento na expressão boquiaberta, olhos esbugalhados e língua pra fora, extremo cansaço em uma face exausta, é o de que a metáfora da via crucis se materializa cada vez que seres humanos são sacudidos por catástrofes, seja uma catástrofe íntima, um problema pessoal, cuja solução se põe no reino do impossível, seja uma catástrofe coletiva (tsunamis, terremotos, acidentes), em que o impacto destruidor atinge até aqueles que nela não estão diretamente envolvidos.

“A Dor do Mundo” não é só um rosto com expressão de dor, mas ao contrário disso, a expressão da dor no rosto da humanidade.

 

Andreia Donadon Leal – Deia Leal

Pós-graduada em Artes Visuais – cultura e criação

Mestranda em Literatura – cultura e sociedade pela UFV

Presidente Fundadora da ALB-Mariana